Falas de Lula sobre Ortega “prejudicam debate político”, diz especialista

Em entrevista à CNN, cientista político diz que declarações geram "barulho" e não estão de acordo com a maneira como "o partido se comporta no âmbito doméstico"

Giovanna GalvaniJuliana Alvesda CNN

em São Paulo

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As declarações do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) comparando Daniel Ortega, presidente da Nicarágua, com Angela Merkel, chanceler da Alemanha, foram “exageradas” e acabam por prejudicar “a maneira como o debate politico está acontecendo” no âmbito doméstico. A avaliação foi feita por Rafael Cortez, doutor em ciência política, em entrevista à CNN nesta quarta-feira (24).

Lula comparou Ortega e Merkel em entrevista ao jornal El País. “Temos que defender a autodeterminação dos povos. Sabe, eu não posso ficar torcendo. Por que a Angela Merkel pode ficar 16 anos no poder e Daniel Ortega não?”, questionou Lula.

Para Cortez, as declarações foram “infelizes” e errôneas do ponto de vista conceitual, já que, na Alemanha, há um regime parlamentarista que possibilita a reeleição de um primeiro-ministro por meio da coalisão de seu partido no Parlamento.

No sistema presidencialista que migra para o autoritarismo, como no caso da Nicarágua, há uma tendência à centralização e violência política, além de mudanças no Poder Judiciário e alteração de regras que dificultam a competitividade, explicou.

“A gente tem que sair um pouco do maniqueísmo do bem contra o mal. Não há coloração ideológica que justifique regimes centralizadores. Esses posicionamentos que o PT e Lula fazem prejudica a maneira como o debate politico está acontecendo”, diz o cientista político.

Segundo Cortez, tais posturas encontram eco em um “histórico da legenda em relação a conflitos políticos em outros países” que, para ele, geram apenas “barulho” e não estão de acordo com a maneira como “o partido se comporta no âmbito doméstico”, analisou.

“Depois do impeachment [de Dilma Rousseff, em 2016], o PT aceitou as regras do jogo e continuou fazendo parte do processo decisório. Estamos discutindo se é possível uma chapa de Lula com Alckmin para ilustrar a disposição do partido em conversar com forças adversárias”, exemplificou.

Para o cientista político, embora países latinos tenham base de comparação devido ao sistema presidencialista, os contextos locais também se impõem nos debates. No caso do Brasil, a polarização para as próximas eleições de 2022 não tende a arrefecer – e em um sentido negativo, observou.

“Dois polos que disputam não é um mal em si mesmo, é um atributo positivo. Nosso risco me parece ser quando a polarização se transforma em radicalização”, disse.

“A polarização é um grande problema quando ela se torna objeto de questionar fundamentos básicos do jogo democrático”, continuou. “A democracia tem que sempre estar sendo vigiada para que não se mine as bases das regras do jogo e do ambiente politico”.

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