O que os brasileiros esperam para o ano de 2022

A CNN ouviu pessoas de diferentes idades e de todas regiões do país para saber as expectativas para o primeiro ano com um grau de normalidade desde o início da pandemia

Brasileiros de todas as regiões falam de suas expectativas
Brasileiros de todas as regiões falam de suas expectativas Arquivo pessoal/Arte CNN

Lucas Rochada CNN

em São Paulo

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Uma névoa, um borrão, um período confuso. Essas são algumas das definições do que representaram os últimos dois anos em meio à pandemia de Covid-19.

Sonhos foram interrompidos, planos foram frustrados e a vida como conhecíamos até então precisou ser reinventada.

Os impactos da pandemia foram diferentes para cada um. Enquanto as crianças ficaram sem entender a distância dos amigos, os adolescentes sentiram o baque do isolamento no período que representa o auge das descobertas.

Jovens adultos sofreram para concluir os estudos e ingressar no mercado de trabalho em meio ao aumento do desemprego.

Considerados um dos principais grupos de risco para a doença, os idosos enfrentaram o medo, a solidão, o tédio e os abalos para a saúde mental de permanecer trancados em casa até o surgimento das primeiras vacinas.

O ano de 2022 poderá ser o primeiro com um mínimo de normalidade desde o início da pandemia, em março de 2020.

Segundo epidemiologistas, o avanço da vacinação poderá trazer de volta parte da vida como conhecíamos no final de 2019, com o incremento dos cuidados que aprendemos a ter durante os dois últimos anos como a etiqueta respiratória, o uso de máscaras, a higienização das mãos com água e sabão, o uso de álcool gel, além de manter os ambientes ventilados e evitar aglomerações desnecessárias.

A CNN conversou com brasileiros de diferentes idades e regiões do país para saber o que eles esperam do ano que acaba de começar; confira algumas das respostas.

Francisco Marquez Jerônimo, 5 anos, Uberlândia, Minas Gerais

O pequeno Francisco, de Uberlândia, no Triângulo Mineiro, tinha apenas três anos de idade quando a pandemia de Covid-19 começou. Em período pré-escolar, ele se deparou com mudanças na rotina, como o isolamento e a perda do convívio com familiares e amigos.

Durante os três primeiros meses da pandemia, Francisco e o irmão João Pedro (12) ficaram morando na casa da avó paterna, Clênia Rocha.

Segundo Clênia, a decisão surgiu em meio ao contexto de pouco conhecimento sobre o vírus e as características da doença. A mãe das crianças, Maria Cristina, atuava como médica pediatra nos hospitais da cidade.

“Eu não pude visitar os meus amigos e tive que me isolar. No ano que vem, quero visitar os meus amigos e brincar. A brincadeira que mais sinto falta é pato, pato e ganso”, conta Francisco.

No jogo, um dos participantes anda em volta de um círculo colocando a mão na cabeça das crianças dizendo “pato”, ao falar “ganso”, a escolhida deve se levantar e correr em volta do círculo atrás do participante. O objetivo de quem escolheu é se sentar no lugar que ficou vago.

Luís Otávio Flesch de Oliveira, 15, Taquara, Rio Grande do Sul

Aos 15 anos, Luís Otávio Flesch de Oliveira, de Taquara, no Rio Grande do Sul, conta que um dos maiores impactos nos últimos dois anos foi o distanciamento social.

“Eu acabei ficando em casa, perdi contato com muitos amigos e uma coisa que me ajudou muito foram os métodos de bate-papo online. Até para estudar, foi tudo online”, diz.

Para 2022, segundo ele, as perspectivas incluem uma viagem com a família para o exterior. “Uma das minhas expectativas é que a gente consiga retomar a normalidade no mundo todo. Não só no Brasil, mas Olimpíadas, jogos, que esse tipo de evento volte a acontecer com mais frequência”, afirmou.

Thaís Gomes dos Santos, 25, Duque de Caxias, Rio de Janeiro

Em 2019, Thaís Gomes dos Santos, de 25 anos, de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, concluiu a graduação em Geografia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj). Os planos de começar a procurar o primeiro emprego e dar início ao mestrado foram frustrados pela pandemia.

“Foi um momento de desesperança muito grande. Vimos tudo fechando e o mercado de trabalho com um número cada vez maior de desempregados. Comecei a ficar muito ansiosa e assustada com a situação que foi piorando com o passar do tempo”, conta.

Para Thaís, o apoio da família foi essencial para atravessar o primeiro ano da pandemia. Em 2021, surgiu uma oportunidade de emprego como professora substituta.

“Comecei a dar aulas para crianças que estavam há muito tempo sem ir para a escola. Ao mesmo tempo em que as crianças aprendem muito rápido, elas também desaprendem rapidamente. Elas desaprenderam o que é o ambiente escolar. Tínhamos que fazer movimentações didáticas que antes não precisávamos”, afirma.

Para Thaís, um dos grandes desafios no novo emprego foi lidar com os impactos da pandemia e do distanciamento social para o aprendizado dos estudantes.

“Decidi trazer para a sala de aula o momento que estamos vivendo e contextualizar a relação entre a pandemia e a geografia. Foi importante discutir como tivemos esse momento da vida interrompido e suas consequências, como a perda de parentes e amigos”, afirma.

Hoje, Thaís concilia as atividades de ensino com o curso de mestrado na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ).

“Para 2022, espero que meus alunos consigam ver o meu rosto (risos). No mestrado, acho que vai ser muito interessante conhecer os meus colegas e professores pessoalmente. Não sei mais nem se sou uma pessoa sociável, depois de tanto tempo trancada em casa não sei mais utilizar o espaço como lazer, mas vamos voltando e tentando reaprender”, diz.

Yan Caldeira, 25, Belém, Pará

A região Norte do país, especialmente a cidade de Manaus, no Amazonas, vivenciou um dos cenários mais críticos da pandemia. A emergência da variante Gama provocou um aumento significativo no número de casos da doença entre o final de 2020 e o início de 2021.

O publicitário Yan Caldeira (25) afirma que a pandemia modificou a forma como ele se relaciona com as pessoas. “Temos uma nova noção do que é a presença. Se antes ela era muito literal, agora consigo entender que estar presente não significa necessariamente estar ali fisicamente, mas se importar e exercer uma influência na vida das pessoas”, diz.

Ele conta que havia concluído a graduação pouco antes do início da pandemia e que em abril de 2020 foi surpreendido com a perda do emprego. “Foi desesperador, eu não sabia como seriam as coisas. Foi bem difícil”.

Em 2022, Caldeira pretende retomar planos e objetivos que foram interrompidos nos últimos dois anos. “Esse tempo serviu para ver se ainda faz sentido tudo aquilo que estávamos planejando. Coletivamente, espero que as pessoas confiem mais no poder da ciência e da informação”, diz.

Danee Alves Amorim, 29, São Paulo

Antes da pandemia de Covid-19, Danee Alves Amorim, 29, morava na cidade de Taquaritinga, no interior de São Paulo, e trabalhava com o circo. Ela conta que viu a vida se transformar desde o início de 2020.

“Por incrível que pareça, a pandemia impactou de forma benéfica, foi quando eu comecei a trabalhar no coletivo Tem Sentimento. Foram vagas abertas por conta da pandemia. Nessa época, eu morava em um centro de acolhida e assim consegui mais autonomia na minha vida”, diz.

O coletivo Tem Sentimento foi criado em 2018 com o objetivo de geração de renda para mulheres cis e trans no território da Cracolândia, no centro de São Paulo. A iniciativa também realiza ações sociais como a entrega de alimentos e de materiais de higiene para a população em situação de vulnerabilidade (saiba como doar).

“Tem muita ação voltada para a população em situação de rua, muitas de nós já passamos por essa situação e pelo uso de drogas. É um cuidado que fazemos para o outro que tem retorno para nós também”, afirma Danee.

Como mulher trans, Dandee afirma que espera uma maior conscientização da sociedade para o respeito e cuidado com essa população em 2022.

Maycon Rodrigo Torres, 35, Rio de Janeiro

O psicólogo e professor Maycon Rodrigo Torres, 35, do Rio de Janeiro, relata que a pandemia provocou mudanças com impactos no atendimento clínico particular e pelo Sistema Único de Saúde (SUS), assim como a sua atuação na área do ensino.

“No âmbito do SUS, tivemos que inventar novas formas de produzir cuidado em saúde mental para os usuários em uma situação delicada. A maior parte das pessoas que atendemos é de usuários com acesso mais restrito à tecnologia, tanto pelas questões sociais, como pobreza e vulnerabilidade, quanto pelas particularidades dos transtornos mentais”, afirmou.

Para ele, o atendimento à distância, que foi uma nova maneira de trabalhar, tem se mostrado uma experiência positiva.

“Há uma discussão teórica sobre o modo de funcionamento da psicoterapia online, que eu pude avaliar na prática e constatar que os efeitos são iguais. A estrutura da psicoterapia permanece funcionando, ainda que hajam novos desafios e formas de criação de vínculos e de intervenções”, destaca.

O psicólogo afirma que o retorno às atividades sociais em 2022 deve acontecer com adaptações. “Ainda não sei como vou conduzir as experiências de sociabilidade levando em consideração as restrições. Mesmo com o avanço da vacinação, existe um cuidado importante de ser feito. Uma perspectiva que pretendo manter ainda é evitar aglomerações e lugares fechados”, diz.

Leonardo Silva de Souza, 41, Salvador, Bahia

Durante a pandemia, o engenheiro e pesquisador Leonardo Silva de Souza, 41, mudou-se da cidade do Rio de Janeiro para Salvador, na Bahia. “Eu preferi ficar perto dos meus pais, pois não sabia o que poderia ocorrer. Quando veio a pandemia eu meio que voltei para as minhas raízes. Queria proteger todos os meus familiares e ser protegido também”, diz.

Leonardo conta que o projeto que vinha sendo desenvolvido no trabalho foi interrompido por conta da pandemia. No entanto, novas pesquisas surgiram desde então. “A perspectiva de 2022 é esperar que a pandemia diminua, em um nível que dê para abraçar e voltar a ver as pessoas pessoalmente”, diz.

O engenheiro recorda com nostalgia de manifestações culturais típicas de Salvador, como as festas de largo, incluindo a do Senhor do Bonfim e do Rio Vermelho.

“São festas com dança, música, capoeira, e todo tipo de manifestação, em que você revê as pessoas e abraça seus amigos. Para 2022, espero que possamos ter pelo menos essas festas típicas, rever familiares e amigos de forma mais sólida”, afirma.

Natalia Pasternak, 45, São Paulo

A pesquisadora Natalia Pasternak, doutora em microbiologia pela Universidade de São Paulo (USP) e presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), se tornou um dos rostos mais conhecidos no Brasil quando o assunto é Covid-19.

Ao longo dos últimos dois anos, Natalia concedeu inúmeras entrevistas para as imprensas brasileira e estrangeira com o objetivo de esclarecer os diferentes contextos epidemiológicos da pandemia. Para a especialista, o ritmo de trabalho aumentou de forma significativa com a chegada da Covid-19.

“O meu trabalho é combater a desinformação em ciência e saúde. Com a pandemia, ele ficou focado basicamente em Covid-19 que, infelizmente, se mostrou um problema muito maior do que a gente imaginava”, diz Natalia.

Para a pesquisadora, um dos principais desafios no combate à desinformação foi a infodemia, um fenômeno em que o excesso de informações, algumas precisas e outras não, torna difícil encontrar fontes idôneas e orientações confiáveis.

“A carga de trabalho, por conta de ser uma urgência sanitária, praticamente triplicou. Se antes eu já tinha um ritmo de trabalho bastante acelerado, fui obrigada a produzir conteúdo sob demanda muito rapidamente para responder questões sociais que eram urgentes naquele momento. Principalmente questões relativas à desinformação que poderiam levar pessoas a tomar decisões equivocadas que colocariam a vida delas e dos seus familiares em perigo”, conta.

Para 2022, a microbiologista prevê uma volta à normalidade, mas com adaptações. “Vai ser um ano em que vamos passar por uma transição, uma volta à normalidade, porém carregando a máscara e o álcool gel, pois a pandemia mudou a nossa relação com o mundo e com o surgimento de possíveis doenças respiratórias”, diz.

Rosângela Pinheiro, 55, São Luís, Maranhão

A auditora Rosângela Pinheiro, 55, de São Luís (MA), conta que a pandemia mudou completamente a sua rotina de trabalho. A cada 15 dias, ela viajava a serviço da empresa. Por conta da pandemia, as viagens nacionais e internacionais foram suspensas.

Segundo Rosângela, o trabalho deve manter o perfil híbrido em 2022, mesclando auditorias presenciais e remotas. “O impacto profissional foi muito grande. As viagens foram abortadas e passamos a trabalhar 100% remotamente”, diz.

A família de Rosângela ainda não se reuniu desde o início da pandemia de Covid-19. Os encontros, como aniversários e festividades de Natal e Ano Novo, têm sido realizados por chamadas de vídeo. Ela conta que ainda não se sente segura para participar de grandes eventos em espaços fechados.

Para 2022, a auditora afirma que gostaria de voltar a viajar, mas fora do contexto profissional. “Estou em fase de planejamento de uma viagem de férias internacional para junho, mas colocando possíveis incertezas. Pode ser que ela não aconteça por conta de alguma situação crítica da pandemia”, afirma.

Para ela, a pandemia também trouxe um processo de reflexão e mudanças de perspectivas sobre a vida. “Foi um tempo em que todo mundo parou, fez reflexões e buscou ajuda ou terapias. O autocuidado foi significante, foi um tempo em que eu parei para cuidar de mim, da minha saúde física e mental. Passei a me enxergar mais e a ver que a vida não é só trabalho”, diz.

Marilda Siqueira, 66, Rio de Janeiro

A virologista Marilda Siqueira, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), acompanhou a emergência da Covid-19 desde os primeiros relatos na China. Uma das principais especialistas em vírus respiratórios do Brasil, Marilda teve a rotina de trabalho radicalmente modificada a partir de janeiro de 2020.

A pesquisadora, que integra o Grupo Consultivo Técnico sobre Evolução do Vírus SARS-CoV-2 da Organização Mundial da Saúde (OMS), lidera a equipe do laboratório da Fiocruz responsável pelo diagnóstico e estudo genético do novo coronavírus.

Marilda coordenou a elaboração do kit de diagnóstico específico para o vírus e o treinamento de profissionais brasileiros e estrangeiros para a detecção do microrganismo. A pesquisadora conta que, além do aumento do ritmo de trabalho, a pandemia também trouxe impactos para a vida pessoal.

“O contato com vários familiares ficou bastante reduzido, durante esses meses todos da pandemia. Isso é um impacto difícil também, pois ficamos com um cansaço muito grande e sem ver as pessoas que são parte importante da nossa vida da maneira e na frequência como gostaríamos de encontrá-los”, afirma.

Marilda diz ter perspectivas otimistas para 2022, desde que as coberturas vacinais no Brasil e no mundo sejam elevadas.

“A volta à normalidade depende de uma série de fatores. Depende de nós, como humanidade, conseguirmos que a distribuição de vacinas em todos os países do mundo seja feita de uma maneira mais equitativa. Nós temos grandes chances de estarmos em momentos melhores da pandemia em 2022”, afirma.

Daniel Rodrigues Ladeia, 84, Goiânia, Goiás

Com uma disposição perceptível pela voz, Daniel Rodrigues Ladeia, 84, de Goiânia, conta que recebeu com alegria as três doses da vacina contra a Covid-19. “Eu acho a vacina muito importante por que a gente fica mais despreocupado, tomamos eu e minha velha, fiquei muito satisfeito”, diz.

Nos últimos dois anos, Ladeia aprendeu a colocar em prática todas as orientações que previnem a infecção contra a doença. “Limpeza sempre, não esquecer da máscara quando sair ou conversar com outras pessoas e ter cuidado sempre que sair de casa. Eu me cuido”, conta.

Para 2022, o aposentado tem a expectativa de tempos melhores. “Deus é quem sabe, espero que tenha uma melhorazinha. Vamos ver o que Deus vai fazer por nós”, conclui.

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