Ucrânia alerta para possível invasão russa em janeiro e EUA falam em enviar armas

Após reunião com americanos, general ucraniano disse publicamente que a Rússia pode atacar a fronteira em janeiro

Vladimir Putin (à esquerda) e Joe Biden (à direita)
Vladimir Putin (à esquerda) e Joe Biden (à direita) Reuters

Natasha BertrandJim SciuttoKatie Bo Lillisda CNN

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Os Estados Unidos consideram o envio de armamento extra para a Ucrânia à medida que aumentam os temores sobre uma potencial invasão russa, disseram várias fontes familiarizadas com as deliberações oficiais dos americanos à CNN.

O governo Biden está avaliando o envio de conselheiros militares e novos equipamentos, incluindo armamentos, enquanto a Rússia reúne forças perto na fronteira com a Ucrânia. As autoridades americanas preparam aliados para a possibilidade de outra invasão russa ao país vizinho.

As discussões sobre o pacote de ajuda acontecem quando a Ucrânia alerta publicamente que uma invasão pode acontecer já em janeiro. O pacote pode incluir novos mísseis antitanque além de sistemas de defesa aérea, como mísseis stinger.

O Departamento de Defesa dos Estados Unidos tem pressionado para que alguns equipamentos que teriam ido para o Afeganistão – como helicópteros Mi-17 – sejam enviados para a Ucrânia. O Mi-17 é um helicóptero russo que os EUA compraram originalmente para dar aos afegãos.

O Pentágono está pesando o que fazer com eles desde a retirada dos EUA do Afeganistão, em agosto.

 

Mas outros no governo estão preocupados que o envio de armamentos e helicópteros possa ser visto pela Rússia como uma grande escalada. E embora estejam preparados para enviar alguns conselheiros militares para a região, não está claro se algum irá para a Ucrânia, disseram as fontes.

O tenente-coronel aposentado Cedric Leighton disse à CNN que os mísseis antitanque Javelin “são bastante eficazes contra os tanques T-80 que os russos estão realmente empregando nesses esforços contra a Ucrânia”. Mas ele observou que qualquer força adicional dada à Ucrânia pelos EUA significa “aumentar ainda mais as tensões” com Moscou.

Questionado nesta terça-feira (23) sobre a possibilidade de os EUA enviarem assistência adicional à Ucrânia, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse: “Não devemos descartar a possibilidade de enviar conselheiros militares e armas para a Ucrânia, porque isso já está ocorrendo.”

“Conselheiros militares estão chegando lá, as armas são fornecidas – não só dos Estados Unidos, mas também de outros países da Organização dos Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). E tudo isso, é claro, leva a um agravamento da situação na linha de fronteira”, disse Peskov.

O porta-voz russo acusou a Ucrânia de iniciar conflitos na região ucraniana de Donbass, apoiada pela Rússia, mas disse que a Rússia “não vai atacar ninguém” e que o país “não está tramando nenhum plano de agressão”.

Discussão sobre sanções

Enquanto isso, as autoridades americanas têm mantido discussões com aliados europeus sobre a elaboração de um novo pacote de sanções, que entraria em vigor se a Rússia invadisse a Ucrânia, disseram as fontes.

O Congresso americano também está debate o tema e pode incluir novas restrições à Rússia na Lei de Autorização de Defesa Nacional.

Questionado sobre a atividade militar russa, a secretária de imprensa da Casa Branca, Jen Psaki, disse a repórteres na segunda-feira (22) que o governo está preocupado e “teve extensas conversas com nossos aliados e parceiros europeus nas últimas semanas, incluindo a Ucrânia”.

Ela acrescentou que os EUA “também mantiveram discussões com autoridades russas sobre a Ucrânia e as relações EUA-Rússia em geral”. O presidente do Estado-Maior Conjunto, general Mark Milley, também falou por telefone com o comandante-chefe das Forças Armadas da Ucrânia, tenente-general Valery Zaluzhny, na segunda-feira.

As discussões refletem o quão seriamente o governo Biden e o Congresso estão levando a possibilidade de que a Rússia possa invadir a Ucrânia, um aliado estratégico dos EUA, pela segunda vez em menos de uma década.

E as autoridades americanas estão determinadas a não serem pegas de surpresa por uma operação militar russa, como aconteceu durante o governo Obama, em 2014, quando a Rússia invadiu a Crimeia e impulsionou uma insurgência em partes do leste da Ucrânia.

“Nossa preocupação é que a Rússia possa cometer um erro grave ao tentar repetir o que empreendeu em 2014, quando reuniu forças ao longo da fronteira, cruzou território ucraniano soberano e fez isso alegando, falsamente, que foi provocada”, disse o secretário de Estado Antony Blinken na semana passada.

O Serviço de Inteligência Estrangeira da Rússia (SVR) rejeitou as advertências dos EUA sobre uma possível invasão, chamando-as de “absolutamente falsas” em um comunicado na segunda-feira.

“O Departamento de Estado dos EUA, por meio dos canais diplomáticos, traz a seus aliados e parceiros informações absolutamente falsas sobre a concentração de forças no território de nosso país para uma invasão militar da Ucrânia”, disse Sergei Ivanov, chefe do gabinete de imprensa do SVR.

Por semanas, os EUA têm compartilhado informações com parceiros da Otan e aliados europeus sobre movimentos incomuns de tropas russas perto da fronteira com a Ucrânia, que militares e funcionários da inteligência dos EUA acreditam tem potencial para serem precursores de uma operação militar na parte oriental do país.

Os alertas foram muito mais duros e específicos do que os emitidos no passado, disseram fontes americanas, europeias e ucranianas familiarizadas com as discussões.

O tom da Ucrânia também mudou significativamente desde que foi informada pelos EUA.

No início do mês, as autoridades ucranianas minimizaram os relatos de que a Rússia estava concentrando forças perto da fronteira.

Após extensas reuniões entre autoridades americanas e ucranianas, o chefe da inteligência de defesa da Ucrânia, general Kyrylo Budanov está alertando publicamente que a Rússia está se preparando para atacar já em janeiro. A declaração foi feita em linha com as avaliações dos EUA.

Não há indicadores definitivos das intenções de Putin

Ainda assim, as autoridades americanas dizem que o plano final da Rússia ainda não está claro. Um oficial de defesa dos Estados Unidos disse que “não há indicador decisivo das intenções de (Vladimir) Putin“.

E é possível que as manobras sejam um esforço para semear conflito ou coagir o Ocidente a fazer concessões.

Mas os Estados Unidos ainda estão alertando sobre a possibilidade do pior cenário, que Moscou tente mudar seu comportamento com relação a Kiev, estimulada em grande parte pela determinação de Putin de impedir que a Ucrânia se aproxime do Ocidente e adira à Otan.

“Não se atinge esse objetivo escavando outro pedaço da região oriental de Donetsk”, disse uma pessoa familiarizada com a inteligência americana. “Tem que ser algo maior do que isso caso esse realmente seja o objetivo [de Putin]”.

Segundo a fonte, o esforço da Rússia teria que ser maior ao empregado anteriormente.

As autoridades americanas também compartilharam com as autoridades ucranianas as evidências de que a Rússia, por meio do Serviço Federal de Segurança (FSB – sucessor da KGB), está se envolvendo em atividades desestabilizadoras dentro da Ucrânia para fomentar o descontentamento com a administração do presidente ucraniano Volodymyr Zelensky.

Eles também apontaram a presença de forças especiais Spetsnaz e agentes do Departamento Central de Inteligência (GRU), além do SVR perto das fronteiras da Ucrânia.

Autoridades de defesa ucranianas projetaram que a Rússia poderia usar as dezenas de grupos táticos de batalhão atualmente estacionados perto das fronteiras da Ucrânia para lançar um ataque de vários lados, incluindo da Criméia anexada, de acordo com avaliações militares ucranianas fornecidas ao The Military Times.

As autoridades americanas estão observando de perto a atividade russa na Crimeia, para onde a Rússia enviou tropas e unidades militares no primeiro semestre como parte de exercício militares, segundo o país.

Embora o Ministério da Defesa da Rússia tenha ordenado que pelo menos algumas das tropas se retirassem em abril, algumas unidades permaneceram, de acordo com avaliações ucranianas e fontes familiarizadas com o assunto.

Movimentos no Congresso americano

Enquanto isso, democratas e republicanos acrescentaram propostas de emendas ao Ato de Autorização de Defesa Nacional de 2022 no Congresso americano. As propostas devem abordar o tema, mas ainda não há uma versão final.

Uma emenda proposta pelo presidente de Relações Exteriores do Senado, Bob Menendez, à qual a CNN teve acesso, diz que “novas sanções substanciais devem ser impostas” pelo presidente Joe Biden contra altos funcionários do Kremlin – incluindo o presidente russo Vladimir Putin – no caso de uma escalada militar russa contra a Ucrânia.

A alteração também apela a sanções adicionais contra o gasoduto russo Nord Stream 2, que a Ucrânia tem defendido.

Os republicanos do comitê veem a linguagem das sanções do Nord Stream como um passo positivo, disseram as fontes, mas querem que a emenda acione sanções automaticamente no caso de uma incursão russa, em vez de deixar a determinação nas mãos do governo.

A Alemanha, que está envolvida no projeto do gasoduto com a Rússia, anunciou recentemente que está temporariamente interrompendo o processo de certificação do gasoduto.

Mas a Ucrânia também quer que os EUA façam mais para obstruir o oleoduto, e afirma que a Rússia está transformando em uma arma para enfraquecer a Ucrânia, cortando o fornecimento de energia e a receita rumo ao inverno, disse um assessor de Zelensky à CNN.

“Enquanto o governo Biden está alertando sobre a invasão russa da Ucrânia, seus oficiais mais graduados estão no Capitólio tentando proteger o gasoduto Nord Stream 2 da Rússia, fazendo lobby contra a inclusão de sanções contra ele no projeto de defesa anual”, disse o conselheiro.

(Texto traduzido. Leia o original aqui.)

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